|
HÓQUEI
HÓQUEI SOBRE
GRAMA NO BRASIL
por Hans Nass
a
Não existem
registros ou dados confiáveis sobre o início
desta atividade olímpica no Brasil. Creio que
o hockey seja mais um esporte coletivo com bola inventado
pelos ingleses, apesar de existirem afrescos em templos
gregos mostrando jovens jogando e conduzindo uma bola
com um taco curvado. E, na minha opinião, o hockey
chegou ao Brasil com os primeiros ingleses. Junto com
suas ferrovias, redes elétricas e seu comércio,
eles também trouxeram seus esportes prediletos,
o hockey e o cricket. Para se ter uma idéia,
em outros países que tiveram uma marcante influência
inglesa, como a Argentina, Chile, Índia, Paquistão,
Austrália e Quênia, o hockey se converteu
em esporte de massa.
Sabemos que nos anos 1930 já se jogava hockey
em Niterói e em Santos, especialmente nos clubes
ingleses, com times formados por tripulantes de navios
da Inglaterra ou da Holanda. Existem também relatos
sobre partidas de hockey no Flamengo e no Fluminense,
no Rio de Janeiro. |

|
Minha iniciação e meu amor ao hockey datam
dos anos da última guerra mundial. Naquela época,
era quase impossível conseguir uma bola de couro,
matéria-prima restrita à fabricação
de botas para os soldados. Bola de futebol, nem pensar.
Porém, com um galho de árvore curvado
ou com a bengala do avô podia-se bater ou conduzir
qualquer objeto redondo, mesmo se fosse uma batata ou
a cabeça da boneca da irmã. No inverno,
por cerca de quatro meses, uma das poucas diversões
da galera era praticar o hockey no gelo sobre os lagos
congelados.
Com a chegada dos soldados americanos, em 1945, vimos
pela primeira vez um jogo de futebol. Como eu era o
mais rápido da turma, fui convocado para roubar
uma bola deles. Nossa primeira partida de futebol foi
desastrosa. A bola em forma de ovo sempre ia na direção
não planejada e nós voltamos decepcionados
para o nosso velho hockey. Estou convencido que minha
aversão pelo futebol americano data dessa experiência
ruim. Depois disso, joguei hockey na Alemanha e na Suíça,
onde conquistei, em 1953, o título nacional pelo
time Red Sox Zurich.
Meu primeiro contato com o hockey brasileiro foi em
1957, de forma muito casual, durante um passeio em Pirituba,
São Paulo. Incrédulo, me aproximei de
um campo onde era disputada uma partida internacional:
holandeses do clube Nassau contra ingleses do São
Paulo Atlethic Club - SPAC. Eles se enfrentavam semanalmente
no campo do Frigorífico Wilson, às vezes
jogavam sete de cada lado, homens misturados com mulheres
ou solteiros contra casados.
Nem quis acreditar quando me aceitaram em seu time,
sem antes fazer a promessa de formar um time alemão
de hockey em um ano. Na verdade, levou um pouco mais
de tempo, mas "reforçados" com meus
cunhados brasileiros e com alguns amigos conseguimos
formar nosso primeiro time, o Centauro Motoclube. O
incentivo de toda a atividade era treinar uma boa seleção
para os dois confrontos anuais que aconteciam no Rio
Cricket Club, de Niterói. Vez por outra também
recebíamos a visita de times da Europa ou Estados
Unidos em suas viagens para a Argentina ou o Chile.
A atividade de hockey cresceu quando conseguimos um
lindo campo para treinar na Saint Paul School, situada
no Jardim América, em São Paulo. Formamos
um belo time, o primeiro de brasileiros. Foi uma época
de amadurecimento do esporte no Brasil, coroada com
a criação de um lindo campo gramado só
para a prática de hockey nas dependências
do SPAC. Brasileiros formaram o time WALMAP e os alemães
e time Hockey 65. Um bem planejado campeonato uniu os
seguintes times:
SPAC - dos ingleses
NASSAU - dos holandeses
MACAU - dos portugueses de Macau
SAINT PAUL SCHOOL - da escola britânica
DUNLOP - funcionários da fábrica inglesa
HOCKEY 65 - dos alemães
WALMAP - maioria formada por funcionários do
Banco Nacional de Minas Gerais.
Treinando muito, sempre às quartas e domingos
no campo do KOLPINGHAUS, o Walmap logo se tornou um
"papa tudo", ganhando de todo mundo. Ganhamos
de times argentinos, como Gymnasia y Esgrima e Clube
Municipal, viajamos para Buenos Aires com dois times
e disputamos três torneios sem fazer feio. Mais
tarde, o Saint Paul School forneceu a base de jogadores
que treinamos para representar o Brasil nos jogos Panamericanos
de 1963, jogos que foram cancelados na véspera
por causa de uma suposta epidemia de encefalite. Este
foi um golpe duríssimo, que por pouco não
inviabilizou o futuro do hockey em São Paulo.
Enquanto isso, o nosso hockey ia de vento em popa, com
promessas animadoras, como um projeto da Bayer do Brasil
e outro da Escola Americana. Em 1968, encerramos nossas
atividades com um torneio (7 a 7 jogadores) e um animado
churrasco. O gramado do nosso campo de jogo merecia
de um bom trato e descanso. A areia plana e batida da
Praia Grande, no litoral paulista, muitas vezes nos
serviu de campo para os preparativos para a próxima
temporada. Porém, ao voltarmos ao SPAC após
a Páscoa para o início dos jogos, vimos
que o nosso querido campo de hockey deu lugar a uma
piscina, um bar e a uma área de lazer. Mais uma
vez ficamos sem casa e campo, sem atividade durante
quase dois anos, o que fez com que a maioria dos jogadores
se perdesse. Sobreviveram somente Hockey 65, Nassau
e Macau, quando enfim voltamos a jogar em um campo de
uma igreja em Campo Limpo, no subúrbio de São
Paulo.
Em 1975, eu e minha família mudamos para o Rio
de Janeiro. Não se jogava mais hockey em Niterói
e o lindo campo deu lugar a edifícios. Em 1976,
um ex-jogador do time Hockey 65, Joachim Frings, me
convidou para ajudá-lo a incrementar o hockey
na Sociedade Germania. Havia um horário vago
na quadra coberta às quintas-feiras e começamos
nós cinco - Frings, eu e meus três filhos
- a bater as primeiras bolas. Meus filhos trouxeram
seus amigos do Colégio Cruzeiro, como Hubert,
Werner e Marcio e em pouco tempo tínhamos um
grupo animado de jogadores. O primeiro torneio Rio -
São Paulo divulgou nosso hockey e logo se juntaram
a nós holandeses, argentinos e ingleses. O time
foi melhorando e passamos a participar de torneios em
São Paulo.
Surgiu, então, a idéia de se formar uma
escolinha, uma necessidade, tendo em vista que o hockey
na Germânia havia se tornado popular. Desta escolinha
nasceu e sobreviveu o time Germanockeys. Hoje temos
uma federação ativa e uma excelente oportunidade
de crescer com a realização dos próximos
Jogos Panamericanos de 2007, no Rio.
Em 1988, voltei para São Paulo e encontrei o
hockey em decadência e sem renovação.
Só jogavam os "gringos", profissionais
que passavam apenas um curto período no Brasil.
Quase sempre faltavam jogadores para completar o time.
Os jogos ocorriam novamente no SPAC e herdei uma escolinha
de hockey feminina coordenada por Mônica Mills.
Nossos treinos aos sábados de manhã não
passaram despercebidos. Logo se juntaram a nós
os primeiros curiosos e, depois, cada vez mais jovens
entusiastas pelo hockey. Em pouco tempo tínhamos
outra vez um time masculino vestindo a camisa do SPAC,
loucos de vontade de um dia ganhar do time dos alemães.
O hockey ganhou novo impulso com um jovem time formado
só por brasileiros. O fato de haver jogadores
em excesso no SPAC provocou uma divisão no grupo
e deu origem ao time de Interlagos. O trabalho desenvolvido
pelos jogadores brasileiros fez com que o hockey sobrevivesse
em São Paulo, pois já não existiam
os times Hockey 65 e Nassau desde 1999, quando definitivamente
pararam de chegar novos jogadores do exterior.
No passado, nosso hockey sofreu três golpes quase
mortais: o primeiro foi o acidente de ônibus na
Via Dutra, em 1964 que levava nossa seleção
para o tradicional torneio anual de Niterói.
Perdemos cinco companheiros, sem falar dos muito machucados
que nunca mais voltaram a jogar. Não participei
dessa trágica excursão por ter me lesionado
no jogo-treino da véspera; o segundo golpe foi
o trabalho perdido com o treinamento de dois times de
jovens, sacrificando a escola, família e amigos,
para os jogos Panamericanos que foram cancelados. Após
a notícia de que não mais havia os jogos,
nunca mais vimos sequer um jogador; o terceiro golpe
foi a perda do nosso campo no SPAC.
Considero o hockey primeiro como uma filosofia e depois
como um esporte. Acredito que hoje temos adeptos e entusiastas
que não vão deixar a peteca cair. Não
é fácil levar um esporte amador para frente
sem incentivo governamental ou da iniciativa privada.
É um esporte caro. Mas por que o hockey não
poderia dar certo no Brasil, quando só em Buenos
Aires jogam mais de trezentos times femininos e no mundo
inteiro nosso esporte está em plena expansão?
O hockey é, hoje, o esporte coletivo mais praticado
por meninas e mulheres do mundo todo. Hockey é
um esporte praticado por toda a família, é
só lembrar dos torneios com times mistos. Lembro-me
de um torneio em Buenos Aires, onde enfrentamos o Hurling
H.C., um clube da colônia irlandesa. O time era
composto só de uma família, pai e mãe,
quatro filhos e cinco netos. Que jogo lindo! Que time
lindo! Hockey já se pratica com quatro ou cinco
anos e ainda se joga com mais de 72 anos, como eu, que
posso ser encontrado todas as quintas-feiras na Sociedade
Germania. |
|