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HÓQUEI
HÓQUEI SOBRE GRAMA NO BRASIL
por Hans Nass
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Não existem registros ou dados confiáveis sobre o início desta atividade olímpica no Brasil. Creio que o hockey seja mais um esporte coletivo com bola inventado pelos ingleses, apesar de existirem afrescos em templos gregos mostrando jovens jogando e conduzindo uma bola com um taco curvado. E, na minha opinião, o hockey chegou ao Brasil com os primeiros ingleses. Junto com suas ferrovias, redes elétricas e seu comércio, eles também trouxeram seus esportes prediletos, o hockey e o cricket. Para se ter uma idéia, em outros países que tiveram uma marcante influência inglesa, como a Argentina, Chile, Índia, Paquistão, Austrália e Quênia, o hockey se converteu em esporte de massa.

Sabemos que nos anos 1930 já se jogava hockey em Niterói e em Santos, especialmente nos clubes ingleses, com times formados por tripulantes de navios da Inglaterra ou da Holanda. Existem também relatos sobre partidas de hockey no Flamengo e no Fluminense, no Rio de Janeiro.

1981

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Minha iniciação e meu amor ao hockey datam dos anos da última guerra mundial. Naquela época, era quase impossível conseguir uma bola de couro, matéria-prima restrita à fabricação de botas para os soldados. Bola de futebol, nem pensar. Porém, com um galho de árvore curvado ou com a bengala do avô podia-se bater ou conduzir qualquer objeto redondo, mesmo se fosse uma batata ou a cabeça da boneca da irmã. No inverno, por cerca de quatro meses, uma das poucas diversões da galera era praticar o hockey no gelo sobre os lagos congelados.

Com a chegada dos soldados americanos, em 1945, vimos pela primeira vez um jogo de futebol. Como eu era o mais rápido da turma, fui convocado para roubar uma bola deles. Nossa primeira partida de futebol foi desastrosa. A bola em forma de ovo sempre ia na direção não planejada e nós voltamos decepcionados para o nosso velho hockey. Estou convencido que minha aversão pelo futebol americano data dessa experiência ruim. Depois disso, joguei hockey na Alemanha e na Suíça, onde conquistei, em 1953, o título nacional pelo time Red Sox Zurich.

Meu primeiro contato com o hockey brasileiro foi em 1957, de forma muito casual, durante um passeio em Pirituba, São Paulo. Incrédulo, me aproximei de um campo onde era disputada uma partida internacional: holandeses do clube Nassau contra ingleses do São Paulo Atlethic Club - SPAC. Eles se enfrentavam semanalmente no campo do Frigorífico Wilson, às vezes jogavam sete de cada lado, homens misturados com mulheres ou solteiros contra casados.

Nem quis acreditar quando me aceitaram em seu time, sem antes fazer a promessa de formar um time alemão de hockey em um ano. Na verdade, levou um pouco mais de tempo, mas "reforçados" com meus cunhados brasileiros e com alguns amigos conseguimos formar nosso primeiro time, o Centauro Motoclube. O incentivo de toda a atividade era treinar uma boa seleção para os dois confrontos anuais que aconteciam no Rio Cricket Club, de Niterói. Vez por outra também recebíamos a visita de times da Europa ou Estados Unidos em suas viagens para a Argentina ou o Chile. A atividade de hockey cresceu quando conseguimos um lindo campo para treinar na Saint Paul School, situada no Jardim América, em São Paulo. Formamos um belo time, o primeiro de brasileiros. Foi uma época de amadurecimento do esporte no Brasil, coroada com a criação de um lindo campo gramado só para a prática de hockey nas dependências do SPAC. Brasileiros formaram o time WALMAP e os alemães e time Hockey 65. Um bem planejado campeonato uniu os seguintes times:

SPAC - dos ingleses
NASSAU - dos holandeses
MACAU - dos portugueses de Macau
SAINT PAUL SCHOOL - da escola britânica
DUNLOP - funcionários da fábrica inglesa
HOCKEY 65 - dos alemães
WALMAP - maioria formada por funcionários do Banco Nacional de Minas Gerais.

Treinando muito, sempre às quartas e domingos no campo do KOLPINGHAUS, o Walmap logo se tornou um "papa tudo", ganhando de todo mundo. Ganhamos de times argentinos, como Gymnasia y Esgrima e Clube Municipal, viajamos para Buenos Aires com dois times e disputamos três torneios sem fazer feio. Mais tarde, o Saint Paul School forneceu a base de jogadores que treinamos para representar o Brasil nos jogos Panamericanos de 1963, jogos que foram cancelados na véspera por causa de uma suposta epidemia de encefalite. Este foi um golpe duríssimo, que por pouco não inviabilizou o futuro do hockey em São Paulo.

Enquanto isso, o nosso hockey ia de vento em popa, com promessas animadoras, como um projeto da Bayer do Brasil e outro da Escola Americana. Em 1968, encerramos nossas atividades com um torneio (7 a 7 jogadores) e um animado churrasco. O gramado do nosso campo de jogo merecia de um bom trato e descanso. A areia plana e batida da Praia Grande, no litoral paulista, muitas vezes nos serviu de campo para os preparativos para a próxima temporada. Porém, ao voltarmos ao SPAC após a Páscoa para o início dos jogos, vimos que o nosso querido campo de hockey deu lugar a uma piscina, um bar e a uma área de lazer. Mais uma vez ficamos sem casa e campo, sem atividade durante quase dois anos, o que fez com que a maioria dos jogadores se perdesse. Sobreviveram somente Hockey 65, Nassau e Macau, quando enfim voltamos a jogar em um campo de uma igreja em Campo Limpo, no subúrbio de São Paulo.

Em 1975, eu e minha família mudamos para o Rio de Janeiro. Não se jogava mais hockey em Niterói e o lindo campo deu lugar a edifícios. Em 1976, um ex-jogador do time Hockey 65, Joachim Frings, me convidou para ajudá-lo a incrementar o hockey na Sociedade Germania. Havia um horário vago na quadra coberta às quintas-feiras e começamos nós cinco - Frings, eu e meus três filhos - a bater as primeiras bolas. Meus filhos trouxeram seus amigos do Colégio Cruzeiro, como Hubert, Werner e Marcio e em pouco tempo tínhamos um grupo animado de jogadores. O primeiro torneio Rio - São Paulo divulgou nosso hockey e logo se juntaram a nós holandeses, argentinos e ingleses. O time foi melhorando e passamos a participar de torneios em São Paulo.

Surgiu, então, a idéia de se formar uma escolinha, uma necessidade, tendo em vista que o hockey na Germânia havia se tornado popular. Desta escolinha nasceu e sobreviveu o time Germanockeys. Hoje temos uma federação ativa e uma excelente oportunidade de crescer com a realização dos próximos Jogos Panamericanos de 2007, no Rio.

Em 1988, voltei para São Paulo e encontrei o hockey em decadência e sem renovação. Só jogavam os "gringos", profissionais que passavam apenas um curto período no Brasil. Quase sempre faltavam jogadores para completar o time. Os jogos ocorriam novamente no SPAC e herdei uma escolinha de hockey feminina coordenada por Mônica Mills. Nossos treinos aos sábados de manhã não passaram despercebidos. Logo se juntaram a nós os primeiros curiosos e, depois, cada vez mais jovens entusiastas pelo hockey. Em pouco tempo tínhamos outra vez um time masculino vestindo a camisa do SPAC, loucos de vontade de um dia ganhar do time dos alemães. O hockey ganhou novo impulso com um jovem time formado só por brasileiros. O fato de haver jogadores em excesso no SPAC provocou uma divisão no grupo e deu origem ao time de Interlagos. O trabalho desenvolvido pelos jogadores brasileiros fez com que o hockey sobrevivesse em São Paulo, pois já não existiam os times Hockey 65 e Nassau desde 1999, quando definitivamente pararam de chegar novos jogadores do exterior.

No passado, nosso hockey sofreu três golpes quase mortais: o primeiro foi o acidente de ônibus na Via Dutra, em 1964 que levava nossa seleção para o tradicional torneio anual de Niterói. Perdemos cinco companheiros, sem falar dos muito machucados que nunca mais voltaram a jogar. Não participei dessa trágica excursão por ter me lesionado no jogo-treino da véspera; o segundo golpe foi o trabalho perdido com o treinamento de dois times de jovens, sacrificando a escola, família e amigos, para os jogos Panamericanos que foram cancelados. Após a notícia de que não mais havia os jogos, nunca mais vimos sequer um jogador; o terceiro golpe foi a perda do nosso campo no SPAC.

Considero o hockey primeiro como uma filosofia e depois como um esporte. Acredito que hoje temos adeptos e entusiastas que não vão deixar a peteca cair. Não é fácil levar um esporte amador para frente sem incentivo governamental ou da iniciativa privada. É um esporte caro. Mas por que o hockey não poderia dar certo no Brasil, quando só em Buenos Aires jogam mais de trezentos times femininos e no mundo inteiro nosso esporte está em plena expansão? O hockey é, hoje, o esporte coletivo mais praticado por meninas e mulheres do mundo todo. Hockey é um esporte praticado por toda a família, é só lembrar dos torneios com times mistos. Lembro-me de um torneio em Buenos Aires, onde enfrentamos o Hurling H.C., um clube da colônia irlandesa. O time era composto só de uma família, pai e mãe, quatro filhos e cinco netos. Que jogo lindo! Que time lindo! Hockey já se pratica com quatro ou cinco anos e ainda se joga com mais de 72 anos, como eu, que posso ser encontrado todas as quintas-feiras na Sociedade Germania.